O crescimento do
trabalho infantil no Pará e as estratégias de prevenção e combate a esse avanço
serão tema de reflexão da Campanha Nacional Contra o Trabalho Infantil, cujo
lançamento no Estado será hoje, no auditório Desembargador Agnano Monteiro
Lopes, no Fórum Cível da capital, Cidade Velha, a parti r das 8h30.
Um painel sobre
os “Cenários do Trabalho Infantil no Estado do Pará” terá as participações do
economista Roberto Sena, do Dieese, que mostrará os números do trabalho infanti
l no Estado; da professora doutora Danila Cal, da Unama, que abordará o
trabalho doméstico infantil; e do diretor do Instituto Peabiru, João Meirelles
Filho, que tratará do trabalho de crianças e jovens nas cadeias produtivas da
área rural da Amazônia.
Mais de 200 mil
crianças e adolescentes em idade escolar exerciam alguma atividade laboral no
Pará, entre 2013 e 2014, segundo dados da Pesquisa Nacional Por Amostra de
Domicílio (PNAD), do IBGE, o equivalente a 10% da população de 5 a 17 anos no
Estado.
Para se contrapor
a esse avanço, o Fórum Paraense de Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção
do Trabalho do Adolescente (FPETIPA), composto por representantes de entidades
da sociedade civil e da esfera pública, lança hoje a campanha cujo mote é “Não
ao trabalho infantil na cadeia produtiva. Apoie essa ideia”, com ênfase aos
arranjos relacionados à produção do açaí.
SAFRA
Segundo a fiscal
da Secretaria Regional do Trabalho e Emprego (SRTE), Aline Calandrini, o
trabalho infantil na cadeia produtiva do açaí é uma realidade no período da
safra, quando as famílias envolvidas na atividade mobilizam crianças para apanhar
o fruto, devido à destreza para subir com o auxílio da peconha (cinta rústica
confeccionada com fibras vegetais) em palmeiras altas, cuja espessura não
suporta muito peso.
Ela explica que a
ênfase da campanha na cadeia produtiva do açaí deve-se ao fato de se tratar de
um produto típico da região amazônica, cuja comercialização e de seus derivados
tem conquistado mercado no País e no exterior, transformando-se em uma espécie
de commodity.
“Denúncias
recebidas pela SRTE/PA dão conta de que trabalhadores da extração do açaí, em
geral, começam a exercer essa atividade ainda na idade jovem. Embora esse tipo
de trabalho contribua para a geração de renda para as famílias, infelizmente
sacrifica a adequada formação e o ensino dos filhos que se constituem força de
trabalho, inclusive o trabalho infantil. Ademais, tem-se conhecimento de que, quando
começa o ciclo produtivo do açaí, há certa diminuição da frequência dos alunos
nas salas de aula. Ressalta-se que a atividade extrativista do açaí enquadra-se
nas piores formas de trabalho infantil, devido ao esforço físico intenso,
posturas viciosas, exposição à radiação solar, dentre outros riscos
ocupacionais”, diz ela.
João Meirelles Filho,
do Instituto Peabiru, é ativista ambiental há 30 anos e trabalha junto a 4,5
mil famílias, com assistência técnica e extensão rural (Ater) nas cadeias de produção
de açaí, da pesca e mel de abelhas nativas.
Em parceria com o
Unicef e a Fundacentro e financiamento do programa Trabalho Seguro, do Tribunal
Regional do Trabalho, o Instituto Peabiru pesquisou as condições de trabalho no
extrativismo do açaí, no Marajó, e constatou a necessidade urgente de dar maior
atenção à condição do ‘peconheiro’, devido ao alto risco da atividade. “Essa
questão precisa ser estendida para a pecuária bovina, pesca, palma e outras
atividades”, argumenta Meirelles.
No ano passado, a
SRTE fez 367 fiscalizações de combate ao trabalho infantil em todo o Estado,
durante as quais constatou a presença de 152 crianças que atuavam em atividades
consideradas degradantes para a infância, entre as quais manutenção, limpeza,
lavagem ou lubrificação de veículos em lava-jatos, borracharias e oficinas
mecânicas, todas na lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP).
“O número de
autuações foi maior nos municípios de Parauapebas e Marabá, no sudeste do
Estado, sendo as maiores incidências as atividades nos locais e serviços
insalubres ou perigosos - conforme regulamento - e manutenção em serviço de
trabalhador com idade inferior a 16 anos”, informa Aline Calandrini.
DOMÉSTICAS
A partir de pesquisa
com meninas trabalhadoras e mulheres que foram trabalhadoras domésticas na
infância, a professora Danila Cal, da Unama, doutora em Comunicação Social pela
Universidade Federal de Minas Gerais, avalia a partir de dados qualitativos os
elementos simbólicos, sociais e culturais que mantêm o trabalho infantil no
Pará.
Ela acredita que
o crescimento do trabalho infantil no Estado, sobretudo na área dos serviços
domésticos, pode ser um reflexo da recusa de contratação de adultos de acordo
com a nova lei que regula o trabalho doméstico no País, do ano passado, que
assegurou uma série de direitos trabalhistas, como piso não inferior ao salário
mínimo, férias,
FGTS e jornada.
“Esse trabalho informal aparece disfarçado naquela fórmula de contratação de
crianças e adolescentes para ‘reparar uma criança’”, observa, ao ponderar que
essa avaliação preliminar exigiria uma pesquisa mais aprofundada para
comprovação.
O Dia Mundial
Contra o Trabalho Infantil é celebrado em 12 de junho, instituído pela
Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2002, quando foi apresentado o
primeiro relatório global sobre o trabalho infantil na Conferência Anual do
Trabalho. Desde então, a OIT convoca a sociedade, os trabalhadores,
empregadores e governos a se mobilizarem contra o trabalho infantil.
No Brasil, o 12
de junho foi instituído pela Lei Nº 11.542/2007. Este ano, levando em
consideração que o trabalho infantil se concentra em atividades informais na
cidade e no campo, o tema escolhido é o trabalho infantil nas cadeias
produtivas.
Fonte: O Liberal.