Mais 108
municípios brasileiros estão elaborando decretos de calamidade financeira para
pressionar o governo federal a socorrê-los diante das dificuldades nas contas
públicas, afirmou ontem o presidente da Confederação Nacional dos Municípios,
Paulo Ziulkoski, em entrevista à Rádio Estadão.
Os decretos
aumentam ainda mais o número de cidades que decretaram calamidade em busca de
recursos. A dificuldade para pagar salários e honrar compromissos já levou pelo
menos 62 prefeituras a decretar estado de calamidade financeira desde o ano
passado - sendo 32 deles apenas neste mês de janeiro.
"Estamos
conversando com os prefeitos para ter cuidado com os decretos, que é mais
manifestação política do que ato jurídico", afirmou o presidente da
Confederação, dizendo que o exemplo precisa vir "de cima" e o País
necessita discutir um novo pacto federativo para que os municípios tenham mais
retorno dos impostos arrecadados.
Ziulkoski
comentou ainda que os municípios serão fortemente impactos pelo reajuste de
7,64% no piso nacional para profissionais do magistério em 2017, anunciado pelo
governo federal no último dia 12. "O impacto é de R$ 5,1 bilhão já no mês
de janeiro para os municípios. O governo aprovou uma emenda constitucional (PEC
do teto de gastos) tão defendida pelas elites e bancos dizendo que não pode
gastar acima da inflação do ano anterior. E 2016 fechou com inflação em 6,29%.
Aí dá um reajuste no piso de 7,64%. É muito bonito fazer política e depois
cobrar eficiência da gestão", disse o dirigente.
Para o presidente
da entidade, os legisladores no Congresso formulam leis colocando obrigações às
prefeituras mas não mudam a forma de distribuição dos recursos. "União
fica com 60% do bolo nacional (de impostos). Quem vive de transferência é a
União, que, com perdão da palavra, fica escorada nos municípios e é verdadeira
gigolô dos municípios, que produzem o PIB (Produto Interno Bruto)",
comentou.
PRESSÃO
Confederação
Nacional dos Municípios (CNM) diz que com os decretos os prefeitos se livram
temporariamente das punições previstas pelo descumprimento da Lei de
Responsabilidade Fiscal (LRF). Mas, na prática, os prefeitos têm visto o
decreto de calamidade como meio de pressão por negociações de socorro, a
exemplo dos acordos firmados pela União com Estados.
A CNM disse temer
que a iniciativa seja vista pelos novos prefeitos como uma espécie de tábua de
salvação para todos os problemas. “Estamos orientando, dizendo que o decreto em
si não tem efeito jurídico, já que precisa ser aprovado pelo legislativo local.
É um ato político”, disse o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski. O principal
receio é de que o decreto encoraje os gestores a praticarem “liberalidades”,
como reduzir salários ou firmarem contratos com dispensa de licitação de forma
indiscriminada.
A adesão dos
municípios ao decreto de calamidade financeira – que ganhou projeção após ser
adotado pelo Estado do Rio de Janeiro em junho, e depois pelo Rio Grande do Sul
e por Minas Gerais –, é crescente. Para o economista Paulo Brasil, especialista
em orçamento e finanças públicas, o número de municípios em calamidade
financeira deve ser maior que os 62 divulgados, tendo em vista que os 5,6 mil
espalhados pelo País estão em situação “extremamente crítica”.
Segundo ele, os
municípios foram criados no Brasil com uma estrutura inchada e extremamente
dependente dos repasses dos Estados e da União. Além disso, as administrações
municipais sempre burlaram exigências da LRF, que impõe que os gastos tenham
como teto a arrecadação. “Se começar a perder o prumo, a União pode se ver
obrigada a adotar um modelo intervencionista para que o cidadão não seja punido
em serviços básicos, como saúde e educação”, afirmou.
Fonte: O Liberal.