Uma ação de cidadania mudou a realidade de
famílias de comunidades distantes no Marajó. Saindo de Belém são mais de seis
horas de balsa e estrada de chão, atravessando o Marajó, para chegar até a
localidade de São José. Depois, mais 30 minutos de embarcação pequena até a
comunidade de Curiosidade, local onde mais de 150 pessoas, entre adultos e
crianças, esperavam para receber sua certidão.
Em 2013 o Governo do Estado lançou a Campanha
de Combate ao Sub-registro de Nascimento. A partir daí, a Secretaria de Estado
de Assistência Social (Seas) iniciou a ação de cidadania nos municípios que
possuem grande número de crianças sem certidão de nascimento. Somente no ano
passado, a ação chegou aos municípios de Portel, Melgaço, Curralinho e Breves,
todos localizados na região do Marajó, onde está o maior índice de
sub-registro.
Este ano a ação continua no Marajó,
priorizando as localidades mais distantes e de difícil acesso. Já foram
beneficiadas Camará, Gurupá e Caracará, localizadas no município de Cachoeira
do Arari. A ação foi realizada no final de fevereiro e garantiu a cidadania
para mais de 350 pessoas. Foram emitidas 17 certidões de primeira via e 336 de
segunda via. “Tivemos casos de certidões feitas ainda à mão pelo bisavô do
cartorário”, destacou Elizanete Viterbino, gerente de projetos estratégicos da
Seas.
De acordo com Elizanete “o deslocamento até
as localidades é definido através do estudo de dados do IBGE e das declarações
de nascidos vivos do ano anterior”. Ainda segundo ela, por meio da certidão a
pessoa vai ter acesso a todos os serviços de que o estado dispõe, inclusive
programas sociais. É um direito constitucional e faz a pessoa existir de fato e
de direito.
A secretária municipal de assistência social
de Cachoeira do Arari, Jacirema Pedrosa, elogiou a ação nas comunidades. “O
diferencial é que o Estado está chegando aos locais de difícil acesso. A
maioria dessas famílias não tem como chegar até Cachoeira e significa muito
para elas ver o Governo mais de perto”, destacou.
Mesmo sendo feito todo o acompanhamento
durante a gestação, algumas mulheres não conseguem chegar a tempo na unidade de
saúde e acabam tendo o bebê em casa. Isso dificulta ainda mais a retirada de
certidão de nascimento devido à dificuldade de se conseguir depois a Declaração
de Nascido Vivo.
Existem na comunidade três parteiras, mesmo
assim diminuiu a quantidade de crianças nascidas em casa, principalmente devido
ao trabalho dos agentes de conscientização das famílias da importância de se ir
até o posto de saúde.
Na Comunidade de Camará não foi diferente. A
equipe da Seas encontrou dois casos de famílias em que os bebês nasceram em
casa e que ainda não tinham certidão e um caso de uma criança que já ia
completar um ano de idade e a mãe não queria tirar a primeira via de certidão.
“Nessa situação, explicamos para a mãe a importância do registro de nascimento.
No mesmo instante emitimos a certidão dela, para garantir os direitos não só da
criança, mas da família como um todo, que agora pode ser inserida no Cadastro
Único”, destacou Elizanete.
Ação Social
Durante a ação de emissão de registro de
nascimento, a equipe da Seas também realiza - em parceria com a Secretaria
Municipal de Assistência Social - o trabalho de orientação e encaminhamento das
famílias para os programas sociais. Somente na comunidade de Curiosidade
verificou-se que 100% das famílias recebem Bolsa Família.
Segundo Elizanete, “durante conversa com as
famílias é que se verificam as situações de vulnerabilidade, como exploração
sexual, trabalho infantil, violência contra a mulher e outros tipos de abusos
que devem ser encaminhados para a secretaria municipal”.
Durante a ação foram identificados casos de
jovens com apenas 18 anos de idade e que já possuem mais de três filhos,
crianças que foram mandadas para Belém para trabalhar em casa de família, entre
outros. “Todos esses casos serão analisados pela equipe da secretaria e feitos
os devidos acompanhamentos e encaminhamentos”, destacou a secretária municipal
Jacirema.
Para a técnica da Seas, Célia Dereci, esse
trabalho é fundamental para identificar esses casos. "Jamais teríamos
conhecimento dessas situações de vulnerabilidade se não viéssemos até aqui”.
Fonte: AGPA