Aurimar Monteiro de Araújo, Mestre Ari, tinha
78 anos e era reconhecido como o mais importante fazedor de rabecas na
Amazônia. A sua morte, na tarde de ontem, deixa uma lacuna irreparável na
cultura paraense: de um homem que não só contribuiu para o resgate desse
instrumento tão importante para a cultura popular no Pará, mas também para
disseminar a arte como transformação social para diversas crianças e
adolescentes de Bragança, nordeste do estado.
“Ele foi o responsável pela rabeca da
Marujada não ter desaparecido. Ele aprendeu como se fazia o instrumento e o
disseminou ensinando para crianças e construindo para vender ao artista. Era um
homem sábio que, de forma voluntária disseminou a cultura paraense”, disse,
emocionado, Aurimar Silva Araújo, filho do mestre.
O artista estava internado com insuficiência
respiratória e isquemia em um hospital em Bragança, desde segunda-feira (09),
em decorrência da Esclerose Lateral Amiotrófica, doença com que o afligia há
seis anos.
Para o filho, a perda de Mestre Ari é mais
que uma dor familiar e traz consigo uma dúvida quanto à continuidade do
trabalho do pai, que era um referencial na luta pela cultura popular, usando a
arte musical como meio de transformação social na vida de crianças,
adolescentes e jovens carentes ou em situação de vulnerabilidade social, com a
Associação Bragantina de Música e o Instituto de Artes Aurimar Monteiro de
Araújo (Instituto Ama), fundado há mais de 11 anos e que atende a mais de 800
crianças e adolescentes da cidade
“Fazemos este trabalho sem ajuda pública e
quando passar esse momento teremos que reunir para saber como vamos continuar
este projeto tão importante, já que era mantido pela aposentadoria do meu pai e
também com a comercialização de instrumentos produzidos por ele e recursos
vindos de doações”, diz o filho.
Mestre Ari foi também o idealizador dos
projetos Sons do Caeté e Multiplicando a Música Brasileira na Amazônia,
pioneiros no nordeste paraense, que propiciaram o ensino musical e a formação
cidadã de mais de 3,4 mil crianças, adolescentes e jovens. Foi o criador da
Orquestra de Rabecas da Amazônia, Grupo de Rabecas de Bragança, da Banda
Musical Sons do Caeté, da Lira Bragantina, da Oficina Escola de Lutheria de
Braganca e do Liceu de Artes do Instituto Ama.
Com seu trabalho cultural e social, seus projetos
receberam diversos prêmios nacionais e internacionais, como o Prêmio Cultura
Viva e Prêmio Culturas Populares, ambos concedidos pelo Ministério da Cultura,
além de ter recebido apoio da Unesco.
Mestre Ari recebeu título de Honra ao Mérito
pela Assembleia Legislativa do Pará, a menção honrosa da Unesco, através do
Prêmio Kelog AméricaLatina e Caribe e, ano passado, teve seu nome entre as
personalidades brasileiras para receber a Comenda Chico Xavier, o mais elevado
título honorífico concedido pelo estado de Minas Gerais.
Para o músico Júnior Soares, do Arraial do
Pavulagem, Mestre Ari era uma raridade que ele conheceu há 12 anos durante um
trabalho de pesquisa em que estudou o uso da rabeca na Marujada e na região
bragantina.
“Tivemos a honra de conhecer tanto seu Bené
Brito quanto Mestre Ari durante essa pesquisa e ambos eram muito importantes,
pois eram dos raros fazedores deste instrumento. Me chamou atenção que o Mestre
Ari tinha uma preocupação estética com o que produzia, um cuidado especial. Ele
fazia rabecas de formatos diferentes, era um verdadeiro estudioso”, diz o
músico.
Júnior elogia o trabalho do Instituto Ama e
diz que é muito importante que essa disseminação da arte de fazer o instrumento
continue. “Mestre Ari era muito solidário e tinha essa coisa de dividir o que
sabe com as pessoas e por isso seu trabalho era tão especial. Espero que sua
partida não seja uma perda para esse processo de ensinar a fabricar o
instrumento. Sei que hoje, em Bragança, muita gente toca a rabeca, mas não sei
quantos conseguiram aprender a construir o instrumento como ele fazia”, pontua.
Mestre Ari nasceu em Luís Domingues, no
Maranhão, mas adotou a cidade de Bragança para viver e constituir família. Foi lá
que o mestre das rabecas desembarcou na Antiga Estação Ferroviária, aos 18
anos, no dia 26 de dezembro de 1954, exatamente o dia em que se comemora a
Festividade da Marujada de São Benedito.
Fonte: Diário do Pará.