Sem água, longe de condições extremas de temperatura, um ser humano saudável pode sobreviver apenas cerca de três a cinco dias antes de a desidratação levar à morte. Em uma pessoa adulta, a água representa cerca de 65% de todo peso corporal. Na Terra, apenas 2,5% da água é doce. Dessa pequena porcentagem, cerca de dois terços estão nas calotas polares ou na forma de geleiras.
Do que resta, uma parte considerável está embaixo do solo, em lençóis subterrâneos. Ou seja, a água doce ao alcance das mãos, presente em rios, igarapés, nascentes e lagos, representa apenas 0,26% de todo o estoque disponível. Hoje, no Dia Mundial da Água, o DIÁRIO lembra que ela é um recurso essencial para a vida e mais rara do que se imagina.
Segundo a FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations), órgão das Nações Unidas para agricultura e alimentação, 12% de toda água doce do planeta está no Brasil. Aproximadamente, 80% dos mananciais brasileiros estão aqui, na Amazônia.
Ainda assim, Edna de Fátima de Deus, 39, extrativista, precisa contornar problemas porque não tem água potável em sua casa. Contraditoriamente, ela mora na Ilha do Combu, cercada pelo rio Guamá e pela baia do Guajará.
Das 42 ilhas que compõem o arquipélago de Belém, 17 delas reúnem cerca 1880 famílias, segundo o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Belém. Apenas as maiores e mais populosas, como Mosqueiro e Caratateua, mais conhecida como Outeiro, contam com sistemas de abastecimento de água. Nas demais, há água de sobra, mas ela é imprópria para uso humano.
Para lavar roupa, a louça e o corpo, os extrativistas recorrem ao rio ou à chuva. Boa parte deles, mais afastados do centro urbano e sem condições financeiras, cozinham e bebem água sem o mínimo de tratamento. “Belém vai chegar aos 400 anos e nenhum governante resolveu esse problema histórico que prejudica centenas de famílias. A gente fica se perguntando quando o poder público vai finalmente se sensibilizar para essa situação”, lamenta Pedro Pantoja, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Belém.
ÁGUA NÃO É LUXO
Como apenas cerca de 6% do esgoto sanitário de Belém recebe tratamento antes de ser despejado na baia, segundo o Instituto Trata Brasil, as consequências do contato diário com a poluição são difíceis de serem evitadas. “Muitos ribeirinhos apresentam problemas de pele, principalmente coceira, por tomarem banho nessas águas. Já foram feitos estudos e os índices de coliformes fecais são altíssimos. Grande parte das crianças possui verme, dor de barriga ou diarreia. Água boa não é artigo de luxo, não, é questão de saúde para essas pessoas”, fala Pantoja.
A carência de infraestrutura básica e o isolamento geográfico dificultam a implementação de políticas públicas para atender a população das ilhas. No entanto, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Belém lembra que a prefeitura de Barcarena adotou uma medida viável para atender aos ribeirinhos que moram na Ilha das Onças. “A prefeitura já tentou algumas soluções, abrindo poços artesianos na escola municipal do Combu, por exemplo, mas a água veio muito concentrada com ferro. Não deu certo. Em Barcarena, a prefeitura disponibiliza um barco que leva água potável do continente até a ilha”, conta.
Na região insular de Belém, os ribeirinhos vivem, basicamente, da pesca e da agricultura de subsistência. Porém, boa parte do que é produzido lá, como o açaí, por exemplo, é cultivado por extrativistas que ajudam a manter a Região Metropolitana. “Os trabalhadores daqui abastecem a cidade e Belém virou as costas para os rios”, lamenta Pedro Pantoja.
Entramos em contato com a assessoria de comunicação da Prefeitura Municipal de Belém, mas não foi indicado entrevistado para comentar o assunto até o fechamento desta edição.
Ribeirinhos compram água e contam com ajuda do céu
Wilson Antônio Passos, 53, está preocupado. A bomba que liga sua fonte à caixa d´água está quebrada. O pequeno equipamento, de cerca de 15 centímetros de altura por 25 de comprimento, é responsável por levar água potável a dezenas de famílias da ilha do Combu, Murucutu e redondezas. Seu Wilson mora em Guajará-Mirim, uma localidade que reúne, principalmente, quilombolas da região do Baixo Acará.
Divididos entre o barco, a casa e o caminho do trapiche, 120 galões, devidamente nomeados, permanecem a postos para levar a próxima remessa. Cada um carrega aproximadamente dez litros de água e é vendido a R$ 2.
O poço que, é abastecido pela fonte natural, fica nos fundos da casa do ribeirinho. De lá, a água é bombeada para a caixa d’água e segue por cerca de 300 metros de encanamentos até chegar próximo ao rio, onde os galões são cheios. “A gente faz isso mais pra ajudar as pessoas mesmo. Aqui tem muito gasto com gerador, combustível, ajudante... Eu vendo mais fiado do que não sei o quê”, conta seu Wilson.
Acostumados ao gosto do produto, ele fala que conquistou clientes fiéis. “O pessoal reclama que a água mineral de Belém é muito ruim. Eu só fico chateado porque o cara disse que a bomba ia ficar só o filé e ela nem liga!”, fala rindo o ribeirinho.
Quando a água da fonte não chega, a família de dona Edna de Deus conta, principalmente, com a ajuda de São Pedro para saciar a sede. “A água do rio não presta de jeito nenhum. A gente só usa pra lavar louça, tomar banho, porque não tem outra. Quando chove, o banho é na chuva mesmo. É melhor do que usar água tratada porque o químico deixa nosso cabelo uma palha”, conta a ribeirinha que, tentando relevar os problemas, não esconde a vaidade.
Turismo pode ser alternativa à carências
Aliar desenvolvimento sustentável, capacitando mão de obra local, com políticas públicas voltadas à criação de uma infraestrutura que atenderá diretamente a população do Combu. É isso que o Programa Nacional de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), através da Secretaria de Estado de Turismo (Setur), com apoio da Companhia Paraense de Turismo (Paratur), pretende implantar como modelo piloto no Combu.
Um dos projetos, que conta com uma consultoria externa, prevê a instalação de um complexo turístico e cultural para atrair visitantes e fomentar a economia da ilha.
O outro, em parceria com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), consiste na criação de uma rede de esgotamento sanitário, além da perfuração de um poço artesiano de 60 metros de profundidade. O sistema integrará a cadeia turística e, finalmente, deverá levar água potável aos habitantes da ilha.
Os dois projetos estão avaliados em torno de R$ 3,1 milhões e, atualmente, o governo do Estado encontra-se em fase avançada de negociação com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que deverá financiá-los. “As ilhas próximas têm um grande potencial turístico, mas a carência de infraestrutura se impõe como uma grande dificuldade a ser superada. Se nós tivéssemos investimentos prévios, estaríamos em outra fase, trabalhando na consolidação do produto turístico. Mas, como isso não foi feito, o Estado está assumindo seu papel e realizando esses investimentos de base”, afirma a coordenadora do Prodetur, Márcia Bastos.
A coordenadora esclarece que, por hora, apenas a ilha do Combu deverá ser beneficiada e que estudos técnicos foram feitos para garantir a viabilidade dos projetos.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Combu, Edinei Silva, no entanto, faz ressalvas à iniciativa do Estado. “Nós tínhamos um projeto anterior, avaliado em mais de R$ 3 milhões, que pretendia levar água a outras ilhas, além do Combu. Ele foi considerado inviável porque a água do poço viria concentrada com ferro. Agora, eles querem implantar a mesma coisa, mas dizem que têm tecnologia pra fazer funcionar. Eu espero que dê certo”, anseia.
(Diário do Pará)