ROMANCE DE DALCÍDIO JURANDIR SEGUE EM
CARTAZ
Uma Amazônia sem exotismos ou fantasias,
onde o povo é o personagem principal. Dalcídio Jurandir, escritor paraense
nascido em Ponta de Pedras, na Ilha do Marajó, levou aos leitores uma região
política, social e humana nos romances que escreveu. Exemplo dessa narrativa é
o livro “Marajó”, publicado em 1947. O romance, segundo escrito por Dalcídio,
serviu de inspiração para a construção do espetáculo “Solo de Marajó”, com
direção de Alberto Silva Neto, dramaturgia de Carlos Correia Santos e
interpretação do ator Claudio Barros. A peça segue em cartaz até o dia 26 deste
mês no Salão das Artes do Museu Histórico do Pará (MHEP), às terças e quartas,
sempre às 20h com entrada franca.
Do grupo Usina Contemporânea de Teatro e Tá
Produções, a montagem conta oito histórias diferentes sobre a infância, a
adolescência, a fase adulta, adultério, traição, amor impossível, além de
questões políticas. “As histórias fazem um panorama geral dos personagens
principais que estão envolvidos na trama”, conta Claudio.
Em quase uma hora de espetáculo, o ator
transforma-se em 22 personagens apresentados em um palco neutro, sem cenário e
com uma luz branca que ilumina o único narrador. “A gente foi construindo uma
história de cada vez. Não tivemos um olhar preocupado com a questão da
quantidade. Quando nos demos conta, já estava pronto”, lembra Claudio Barros.
“Solo de Marajó” estreou pela primeira vez
em 2009 e de lá para cá já fez temporadas em Belém, Paragominas, São Paulo e,
recentemente, em cinco cidades do Marajó: Muaná, Soure, Salvaterra, Cachoeira
do Arari e Ponta de Pedras. “Mostrar um espetáculo que fala sobre o Marajó para
as pessoas do Marajó causa uma identificação imediata. As pessoas choram, se
divertem e após as apresentações as conversas com público são momentos
riquíssimos. Além dos espectadores comuns, ainda há pesquisadores e professores
que trocam muitas ideias com a gente”, comenta Claudio.
Na peça, as histórias inspiradas no romance
de Dalcídio narram as condições humanas e sociais do homem que nasceu e vive na
floresta, de como são as relações políticas e com as pessoas que vivem ao
redor. “O público fica espantado ao saber que a obra foi publicada em 1947.
Geralmente as pessoas acham que o romance é recente. Ou seja, já são mais de 60
anos e nós continuamos a viver da mesma maneira. A realidade social e a relação
política ainda é a mesma, ainda é dura, humilhante, desigual”, analisa o ator.
PERCURSO
“Solo de Marajó” é o segundo espetáculo do
Usina que fala sobre a Amazônia. O primeiro foi “Parésqui” em que as atrizes
Valéria Andrade e Nani Tavares narravam a história de vida de uma família de
ribeirinhos que mora na ilha do Combu. As duas montagens são frutos da pesquisa
que o grupo desenvolve sobre a linguagem amazônica. “O grupo tem se voltado nos
últimos anos para temas que estão ligados à vida do homem na Amazônia e também
à pesquisa do ator como narrador de histórias”, explica Alberto Neto, diretor
de “Solo do Marajó”.
A montagem aborda temas como a violência
contra a mulher, o tráfico de pessoas e a extorsão. Uma das oito histórias
contadas no palco é sobre um homem que herdou terras da família e acaba sendo
extorquido por poderosos do município onde mora. “É incrível perceber que as
questões e os problemas levantados por Dalcídio na década de 1940 persistem até
hoje, alguns inclusive em estado mais grave”, desabafa o diretor.
Tratando de forma poética temas fortes e
até dolorosos, a peça conseguiu uma grande receptividade do público. Em
Cachoeira do Arari, conta Alberto, uma das espectadoras revelou ter se
identificado com a história sobre a menina que é arrancada dos braços da
família para viver na cidade. “Ela contou que algumas mulheres da família dela
viveram essa mesma situação”, relembra Alberto. Para ele, a peça traz
identificações imediatas com o público. “O espetáculo ativa a memória de
lugares, pessoas, de uma época vivida pelos espectadores. O público relaciona a
narrativa com a própria memória, o que acaba cumprindo o objetivo do teatro de
ser o espelho da sociedade”, conclui o diretor.
Para a montagem de “Solo de Marajó” foram
necessários sete meses de trabalho divididos entre estudar por completo o
romance de Dalcídio e construir as histórias no palco, tudo feito em conjunto
com ator, diretor e dramaturgo. “Paramos para estudar ‘Marajó’ até para a gente
ter condições e certeza de que seria possível realizar o espetáculo”, justifica
o ator Claudio Barros. O grupo Usina Contemporânea de Teatro ainda planeja para
o futuro uma terceira montagem cênica a partir de narrativas míticas dos povos
indígenas, além de uma segunda temporada de “Solo de Marajó” por outros
municípios marajoaras. O espetáculo conta com produção executiva de Sandra
Condurú, assistência de direção de Fátima Nunes, iluminação de Iara Regina de
Souza e apoio do Centro de Danças Ana Unger.
CONFIRA
“Solo de Marajó”, com Claudio Barros,
direção de Alberto Silva Neto e dramaturgia de Carlos Correia Santos. Até 26 de
junho, sempre às terças e quartas às 20h, no Salão das Artes do Museu Histórico
do Pará (Rua Tomázia Perdigão - Palácio Lauro Sodré, Cidade Velha). Entrada
franca. Informações: 4009-8830.
(Diário do Pará)