O Pará continua sendo o
segundo estado do Brasil com a menor taxa de médicos do Sistema Único de Saúde
(SUS) em relação ao número de habitantes, perdendo apenas para o Maranhão. Os
prefeitos da região do Marajó sofrem em busca de profissionais. Chegam a oferecer
salários muito acima da média nacional mas não conseguem suprir a demanda. Esta
luta encontrou agora um aliado de peso, o governo federal, que lançou ontem o
“Programa Mais Médicos”, que prevê a contratação de médicos para atuar na saúde
básica em municípios do interior e na periferia das grandes cidades.
Serão abertas cerca de 10
mil vagas para médicos para atuação exclusiva na atenção básica em periferias e
nestes municípios que sofrem com a ausência de profissionais, prioritariamente
no interior do Norte e Nordeste do país, com jornada de 40 horas semanais.
O programa, lançado pela
presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto, prevê uma bolsa de R$ 10 mil
e uma ajuda de custo pagas pelo Ministério da Saúde aos profissionais que forem
para as regiões onde há carência de médicos.
A ajuda poderá ser de R$
30 mil para os que forem trabalhar na Amazônia Legal, incluindo o Pará, na
fronteira e nos distritos sanitários indígenas; R$ 20 mil para o Nordeste,
Centro-Oeste (com exceção do DF) e Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais; e de
R$ 10 mil nas capitais, Regiões Metropolitanas e DF. Nos dois primeiros casos,
o pagamento da ajuda será parcelado: 70% no começo, e 30% 180 dias depois. No
último caso, o pagamento se dará todo de uma vez.
Os salários serão pagos
pelo Ministério da Saúde e serão exigidas contrapartidas dos municípios que
serão responsáveis por oferecer moradia e alimentação aos médicos. As
prefeituras também terão de acessar recursos do ministério para a construção,
reforma e ampliação das unidades básicas de saúde. O prazo de adesão dos
municípios vai de 9 a 22 de julho.
Os médicos serão
acompanhados por um tutor indicado por universidade pública; um supervisor
proveniente da secretaria estadual ou municipal de Saúde; e um preceptor que já
atua naquela unidade de saúde. Onde não houver médicos, o preceptor virá de
outro lugar.
Para preencher as vagas, o
governo vai lançar três editais: um para atração de médicos, outro para os
municípios que desejam receber os profissionais e um terceiro para selecionar
as instituições supervisoras.
A quantidade de vagas só
será conhecida depois que os municípios apresentarem suas demandas, mas o
governo estima que o número chegue a 10 mil.
O programa será criado por
medida provisória assinada pela presidenta Dilma Rousseff e regulamentado por
portaria conjunta dos ministérios da Educação e da Saúde.
Estrangeiros e as mudanças
nos cursos de Medicina
O edital para médicos
estará aberto a profissionais formados no Brasil e graduados no exterior,
inclusive estrangeiros. As vagas serão ocupadas prioritariamente por médicos
brasileiros, e os estrangeiros terão de comprovar conhecimento em língua
portuguesa e passar por um curso de especialização em atenção básica.
Só poderão participar
estrangeiros egressos de faculdades de Medicina com tempo de formação
equivalente ao brasileiro, com autorização para livre exercício da Medicina em
seu país de origem e vindos de países onde a proporção de médicos para cada
grupo de mil habitantes é superior à brasileira, hoje de 1,8 médicos/1 mil
habitantes.
Os médicos estrangeiros
ficarão isentos de participar do Exame Nacional de Revalidação de Diplomas
(Revalida) e terão apenas registro temporário, para trabalhar no Brasil por
período máximo de três anos e nos municípios para os quais forem designados. Os
profissionais serão supervisionados por médicos brasileiros.
O Programa Mais Médicos
também inclui mudanças nos cursos de medicina. Os alunos que ingressarem nos
cursos a partir de 2015 terão que atuar dois anos no SUS para receber o
diploma. A medida é válida para faculdades públicas e privadas. Com isso, o
curso passará de 6 anos para 8 anos de duração.
Os estudantes irão
trabalhar na atenção básica e nos serviços de urgência e emergência da rede
pública. Eles vão receber uma remuneração do governo federal e terão uma
autorização temporária para exercer a medicina, além de continuarem vinculados
às universidades. Os profissionais que atuarem na orientação desses médicos
também receberão um complemento salarial. Os últimos dois anos do curso, de
atuação no SUS, poderão contar para residência médica ou como pós-graduação,
caso o médico escolha se especializar em uma área de atenção básica.
Com a mudança nos
currículos, a estimativa é a entrada de 20,5 mil médicos na atenção básica. “Esse
aumento será sentido a partir de 2022, quantos os médicos estarão formados”,
disse o ministro da Educação, Aloizio Mercadante.
De acordo com os
ministérios da Educação e Saúde, as instituições de ensino terão que acompanhar
e supervisionar o aluno. Após o estudante ser aprovado no estágio no SUS, a
autorização temporária de exercício será convertida em inscrição no Conselho
Regional de Medicina. Por haver recursos federais no programa, os alunos das
escolas particulares deverão ficar isentos do pagamento de mensalidade. Esse
trabalho na rede pública não acaba com o internato, no quinto e no sexto anos
do curso.
Até 2017, a oferta de
vagas nos cursos de Medicina terá um aumento superior a 10%. Com o programa
Mais Médicos, serão abertas 3.615 vagas nas universidades públicas e, entre as
particulares, devem ser criadas 7.832 novas matrículas.
O aumento deve ser sentido
este ano, quando abertas 1.452 vagas. Em 2014, serão 5.435, anuciou Mercadante.
De acordo com o ministro, haverá uma descentralização dos cursos que serão
instalados em mais municípios. A residência médica terá de acompanhar o ritmo
de vagas abertas na graduação.
“Não basta abrir curso de
medicina para fixar um médico em uma região que temos interesse para ter. É
preciso residência médica, que é um fator decisivo para a fixação, além de
políticas na área de saúde. Estados que têm oferta de residência médica, tem
uma concentração grande de médicos, como Rio de Janeiro e São Paulo”, disse o
ministro.
Segundo ele, haverá uma
melhor distribuição dos cursos pelo país. Atualmente, 57 municípios oferecem
cursos de medicina, com o programa de residência. Mais 60 passarão a ofertar,
totalizando 117 municípios no país. Isso acarretará, para as federais, a
contratação de 3.154 professores e 1.882 técnicos-administrativos.
Nas particulares, segundo
Mercadante, não haverá mais a “política de balcão”, onde os institutos
apresentam as propostas para a abertura de cursos. Agora, a oferta de cursos de
medicina será definida por meio de editais públicos, de acordo com a
necessidade do país. “Vamos verificar as áreas que têm condições e necessidade
de ofertar vaga e lá ofertaremos”.
Fonte: DOL