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12/12/2011
Variados
Curiosidades marajoaras – ARQUEOLOGIA
 

As origens das diversas culturas que estabeleceram-se na Bacia Amazônica em épocas muito anteriores ao descobrimento e colonização da região, é ainda hoje um vasto campo para estudos, pesquisas e especulações. A pesquisa arqueológica na Amazônia pode ser dividida em 3 fases distintas (3):

 

Pioneira, cuja característica fundamental estava ligada à tradição de colecionar e portanto sendo executada sob um ponto de vista estilístico;

 

Sistemática, iniciada em 1948, por pesquisadores norte-americanos (Meggers e Evans), em Marajó e Macapá;

Integrada, desenvolvida pelo grupo de Arqueologia do Museu Paraense Emílio Goeldi, ligada ao Programa Nacional de Pesquisa Arqueológica.

 

Cerâmica da Ilha de Marajó

Pode-se determinar com base de datação do Carbono-14, que a introdução da cerâmica na Bacia Amazônica, registrou-se no período 980 ± 200 a C. na Ilha de Marajó, Estado do Pará, denominada Fase Ananatuba.

Essa louçaria achada por expedições arqueológicas, determinou toda uma linha de cerâmica artesanal, particularmente retratando fielmente e/ou estilizando peças de fases arqueológicas de Marajó, de Tapajó e de Maracá.

A ocupação da Ilha de Marajó, em tempos pré-colombianos foi efetuada por sucessivos grupos indígenas; estudos porém, com base em estratigrafia arqueológica, definiram 5 fases ceramistas para a Ilha, segundo o pesquisador Mário Simões (3):

 

ANANATUBA (980 ± 200 a. C.);

 

MANGUEIRAS (contemporânea da fase anterior a partir do terço final da duração desta fase);

 

FORMIGA (A. D. 100 a 400);

 

MARAJOARA (A. D. 480 ± 200, A. D. 580 ± 200 e A. D. 690 ± 200 a. C.);

 

ARUà(séculos XII a XVIII).

 

A fase MARAJOARA cujo povo ocupou uma área circular tendo por centro o Lago Arari, no Marajó, notabilizou-se pelo seu apogeu retratado nos achados arqueológicos, que caracterizavam-se "pela exuberância e variedade da decoração, utilizando pintura vermelha e preta, sobre engobo branco"(4).

As urnas funerárias podem ser consideradas a característica da Fase Marajoara e o período mais importante da arte ceramista dos povos da antiga ilha de Joanes.

Os tesos — também chamados aterros artificiais ou mounds — foram introduzidos no Marajó pelos indígenas da Fase Marajoara e adviram por uma questão de tradição deste povo, ou "em virtude de que as elevações rasteiras e inundações não permitiam a utilização do tipo de habitação a que estavam acostumados"(4). Os tesos eram utilizados como habitação ou cemitério e é grande e variada a quantidade de cerâmica neles achada, principalmente na chamada "Ilha" Pacoval, no lago Arari.

 

As urnas eram destinadas a enterramentos secundários — somente ossos. Evans & Meggers pesquisando os tesos de Marajó, tecem as seguintes considerações: "Os enterramentos das urnas funerárias nos mounds — cemitérios, eram feitos uns sôbre os outros, sem qualquer preocupação de não perturbar os anteriores, e há indicações de que grandes fogueiras foram acesas na superfície, bem como de que os ossos eram pintados de vermelho. Faziam oferendas aos mortos, por ocasião dos enterramentos, e a estratigrafia corrobora a prova de que a louça dos diferentes tipos, excisa, incisa e pintada, foi fabricada simultâneamente" (citação transcrita pelo pesquisador Frederico Barata) (5).

Além dos ossos foram encontradas em algumas urnas funerárias, areia, cinza e fragmentos de cerâmica. Alguns esqueletos apresentavam deformações cranianas, traço da FaseMarajoara. A variação da decoração das urnas — umas finamente decoradas e outras mais simples — indicava a posição social do morto.

 

As decorações utilizadas nas urnas funerárias eram dos tipo Joanes Pintado — engobo branco sob pintura vermelha e preta formando desenhos geométricos — incisa (gravado) e excisa (relevo) ou técnica do champlevé. Esta técnica é um processo muito utilizado por entalhadores em madeira e esmaltadores nos metais; consiste em "decalcar um desenho sôbre uma superfície lisa e escavar depois o contorno, em certa profundidade, obtendo assim uma gravura em relevo" (5). A técnica excisa ou champlevé foi utilizada por indígenas na América do Sul e na América do Norte; na Amazônia a única exceção foi feita pela Cultura Tapajó, cuja cerâmica não apresenta vestígios da utilização deste método, no entendimento de Frederico Barata (5).

Haviam urnas que apresentavam modelagem nos dois lados do vaso ou em um só lado, representando figuras estilizadas em forma de animal ou de face humana. Há um tipo de urna funerária que apesar de ter a forma de vaso, com estreitamento no gargalo e borda extrovertida, lembra uma figura humana, com as mãos na boca, que deve representar uma forma de não exteriorização com relação a determinadas circunstâncias ou culto religioso.

Além das urnas, são encontrados nos tesos, pequenos vasos, quase sempre de forma arredondada, que provavelmente eram utilizados como oferendas nas cerimônias fúnebres. Atualmente os ceramistas do município de Ponta de Pedras (Marajó), destacam-se pela beleza com que elaboram reproduções destas peças, aliando a técnica indígena aos modernos métodos utilizados na arte cerâmica.

 

Os ceramistas de Belém, principalmente os localizados no distrito de Icoaraci, são verdadeiros artistas reproduzindo peças de achados arqueológicos, bem como partindo para uma criação mais livre, modelando vasos e outros objetos.

Além das urnas, na cultura marajoara há um destaque especial para as tangas. As tangas de cerâmica da Ilha de Marajó, são, segundo Eduardo Galvão (4), "as peças definidoras por excelência da fase marajoara, pela exclusividade, originalidade e tratamento decorativo".

As tangas são uma evidência isolada do contexto cultural de Marajó, não se podendo precisar até hoje se a sua utilização era como ornamento pessoal ou peças ligadas exclusivamente a cerimônias de natureza religiosa.

As tangas de fibras vegetais e de plumas, são encontradas nas diferentes culturas indígenas da América; porém as tangas de barro são artefatos arqueológicos com evidência exclusiva na Ilha de Marajó, e têm servido de estudo para pesquisadores através dos tempos, sem se ter chegado a uma teoria definitiva.

Helen C. Palmatary (6), citando Heloisa Alberto Tôrres (7), diz que as tangas têm sido encontradas, em alguns casos, atadas às urnas funerárias femininas. Ladislau Neto, segundo Helen C. Palmatary (6), é de opinião que as tangas de barro estavam ligadas a cultos fálicos e salienta o extremo cuidado do artesão marajoara na fabricação e decoração destas peças.

A tanga de cerâmica encontrada nas escavações arqueológicas em Marajó têm o formato triangular, superfície abaulada, com os lados curvos. Apresenta furos nos vértices, por onde presume-se, eram enfiados finos

cordões pelos quais a tanga era suspensa. Foram encontrados dois tipos de tanga, com referência à decoração: "Um, mais simples cujo único tratamento decorativo é um banho ou engobo vermelho, e outro em que predomina a pintura de traços vermelhos sôbre fundo branco. Em alguns exemplares aparecem desenhos em preto, ou combinação de preto e vermelho sôbre fundo claro. É característica dessa ornamentação, uma faixa do lado superior, com linhas verticais e inclinadas, intercaladas com triângulos sólidos"(4). A tanga faz parte da tradição ceramista policrômica da fase Marajoara e ressalta-se que as peças arqueológicas encontradas não apresentam desenhos repetidos.

As reproduções de tangas dos artesãos paraenses, procuram seguir as peças originais com relação ao tamanho, formato e decoração plástica. São cópias de tangas de coleções do Museu Paraense Emílio Goeldi, do American Museum of Natural History (U.S.A.), da Coleção Oliveira (Recife - PE), para citar as produções mais utilizadas pelos ceramistas paraenses.

Ainda no contexto da cultura ceramista da Ilha de Marajó, reproduzida ou recriada pelo artesão paraense, é importante destacar as estatuetas.

As estatuetas ou ídolos têm sido assinaladas em várias fases arqueológicas de Marajó, particularmente na Fase Mangueiras, que faz parte da Tradição Borda Incisa. Meggers & Evans (8) varificaram a evidência de estatuetas nas Fases Marajoara e Aruã.

Estatuetas têm sido encontradas no Equador (Cultura Valdívia) e no México Central (Período Formativo Rural), sendo estas culturas as mais remotas com referências a objetos deste tipo. Foram descobertas estatuetas em culturas ceramistas também da Costa Rica, do Panamá, da Colômbia, da Venezuela e dos Andes Centrais. Helen C. Palmatary estudando os ídolos de Marajó faz correlações destes, com ídolos achados em pesquisas arqueológicas no Vale do Mississipi, nos Estados Unidos da América.

Eduardo Galvão no seu Guia das Exposições Antropológicas do Museu Goeldi (4), faz o seguinte comentário com respeito a estas peças marajoaras: "Estatuetas modeladas em barro, representando a figura humana em formas estilizadas, são muito encontradiças nos têsos funerários. De tamanho pequeno geralmente inferior a 20 cm, distinguem-se pela cabeça alongada ou triangular, ausência de braços, e pernas simplificadas, abertas em U, que dão base de apoio à figura. Geralmente são ôcas, contendo seixos no seu interior, que produzem som como os maracás, quando sacudidos. São decoradas segundo as técnicas usuais da fase marajoara, pintura ou desenho gravados. O sexo quando indicado é geralmente feminino. Atribui-se a essas, funções mágico-religiosas".

As estatuetas apresentam quase sempre pintura branca com decorações de desenhos geométricos em tons de vermelho. A representação da face lembra máscaras usadas em cerimônias.

As reproduções de estatuetas marajoaras dos artesãos paraenses, são cópias de peças autênticas, porém determinados ceramistas improvisam estilizações com base em seus talentos artísticos.

A cerâmica da Ilha de Marajó sempre foi — dentre as expressões artísticas dos povos indígenas pré-cabralinos da Amazônia — a que mais se tem prestado para imitações e estilizações.

As concepções geométricas dos desenhos marajoaras têm dado margem a um desenvolvimento plástico, grande e variado, por parte do artesão paraense, assim como a forma da louçaria, particularmente as urnas funerárias e os vasos.

As características mais marcante da cerâmica marajoara é obtida através da técnica de decoração que é a forma mais primitiva das artes plásticas. A decoração é feita com pintura — em duas ou três cores, predominando o branco, o vermelho e o preto — ou através de desenhos em forma de relevo ou gravado.

Além da técnica decorativa destacam-se os processos utilizados pelos oleiros, pois a cerâmica depende da qualidade e do tipo de argila e do processo de queima.

As peças estilizadas compreendem vasos, pratos para adorno lembrando a forma dos alguidares indígenas e utensílios de uso doméstico.


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