Até esta quarta-feira, 29, representantes dos governos estaduais, municipais e federais estarão reunidos em Belém para debater estratégias que visam erradicar os casos de escalpelamento no Pará, durante o terceiro Seminário Estadual de Prevenção aos Acidentes com Motor com Escalpelamento no Transporte Fluvial, que acontece no auditório do curso de Fisioterapia da Universidade do Estado do Pará (Uepa), campus do bairro do Marco.
Organizado pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) e da Secretaria de Estado de Assistência Social (Seas), o seminário foi aberto nesta terça-feira, 28, e contou com mais de 200 inscritos, o que, na opinião da secretária adjunta de Saúde, Heloisa Guimarães, reflete o interesse dos profissionais da área e também de Ciências Humanas em torno do tema. “É uma questão muito delicada porque precisamos por um freio nisso, e é recompensador ver que há uma legião interessada em colaborar com as políticas públicas que já vem sendo colocadas em prática. E nesse sentido, a participação das vítimas é essencial”, disse.
O escalpelamento é um tipo de acidente provocado pela sucção dos cabelos pelo eixo do motor das embarcações que fazem o transporte de ribeirinhos pelos rios da Amazônia. As principais vítimas são mulheres e crianças, que ao se aproximarem do motor sem a carenagem têm o couro cabeludo arrancado. O acidente provoca graves sequelas físicas e psicológicas e pode levar à morte. Somente este ano, já foram nove casos, o mesmo número registrado em todo o ano passado. A maioria das vítimas é oriunda dos municípios do Marajó e do oeste do Estado.
Para quem ainda não participou do seminário, a programação da quarta-feira terá uma capacitação para atendimento às vítimas, de 14 às 17 horas, ministrado por profissionais da Santa Casa e direcionado a médicos, enfermeiros e técnicos em Enfermagem. No mesmo horário, em outra sala, ocorre a Oficina “Sistema Único de Assistência Social – SUAS”, ministrado por técnicos da Seas e do Ministério de Desenvolvimento Social – MDS.
A secretária adjunta de Estado de Assistência Social, Meive Piacesi, afirma que não é objetivo dos órgãos estaduais promover um quarto seminário sobre o assunto, mas que a Seas está empenhada em acompanhar as vítimas além do contexto do tratamento médico. “Nesse sentido, estamos à disposição para colaborar com as ações coordenadas que possam atender, inclusive, as famílias que possuem vítimas de escalpelamento que ficam com a rotina abalada em função do acidente”, afirmou.
Uma das vítimas de escalpelamento presentes no seminário, Elizângela dos Prazeres, oriunda de Cametá, cobrou mais empenho dos municípios na fiscalização das embarcações e também na assistência às vítimas, mesmo quando estão em Belém por conta do tratamento. Abrigada no Espaço Acolher, mantido pela Santa Casa de Misericórdia do Pará, Elizângela disse que não tem do que se queixar da rotina na casa, da qual é freqüentadora há quatro anos. “No entanto a Santa Casa não pode agir sozinha em torno de nós, vítimas. O acolhimento tem que começar desde lá, onde sofremos o acidente”, afirma.
O seminário conta ainda com a participação de representantes do Ministério de Desenvolvimento Social, como Socorro Tabosa; da Capitania dos Portos, na pessoa do tenente Marco Antonio; da Comissão de Saúde da Ordem dos Advogados do Brasil - Seção Pará, por meio do advogado Wanderley Ladislau; da representante do Cosems, Dalva Pantoja, e da coordenadora de Mobilização Social da Sespa, Socorro Silva, além de integrantes do Ministério Público, da Uepa e da Secretaria de Estado de Educação (Seduc).
A coordenadora de Mobilização Social da Sespa, Socorro Silva, não descarta o pedido de ajuda à bancada de deputados estaduais, federais e de senadores do Pará para que intercedam junto ao governo federal no sentido de conseguir apoio para as próximas campanhas, que já contam com a parceria consistente da Marinha do Brasil, responsável pela disponibilização e instalação de eixos protetores em várias embarcações. Desde quando virou lei federal, em 2009, a instalação da proteção do eixo se tornou obrigatória. A partir de então, a Marinha já realizou mutirões para a instalação gratuita do componente em cerca de duas mil embarcações que estavam em situação irregular. A instalação da cobertura é gratuita, pois empresas privadas patrocinam a iniciativa.
A parceria com a Marinha, nos últimos cinco anos, já rendeu outras campanhas de prevenção e mutirões também pelo interior do Estado. Entre fevereiro e julho deste ano, por ocasião das atividades da Caravana Pro Paz Cidadania Presença Viva, que percorreu 17 cidades da região do Marajó e 13 da região oeste, foram reforçados os compromissos com 36 comitês. Além disso, a Sespa distribuiu cartazes nas cidades e realizou palestras nas escolas, igrejas e hospitais para conscientizar os moradores sobre o agravo.
Essas estratégias também disseminaram novas informações sobre o atendimento às vítimas oferecido pelo Programa de Atenção Integral às Vítimas de Escalpelamento (Paives), realizado na Santa Casa, em Belém, e como é o acesso ao Tratamento Fora de Domicílio (TFD), um benefício fornecido pelos municípios aos pacientes que precisam de tratamento fora da cidade de origem. “Muitas não conseguem o TFD e acabam desistindo do tratamento. Nosso trabalho tem sido resgatar essas pacientes para que voltem ao tratamento na capital”, informou Socorro Silva.
Serviço: III Seminário Estadual de Prevenção aos Acidentes com Motor. Até 29 de agosto de 2012, no auditório do CCBS-Uepa, situado na travessa Perebebuí nº 2623, entre avenidas 25 de Setembro e Almirante Barroso. Informações pelo fone (91) 4006-4329.
Agência Pará de Notícias